Sexta-feira, 25 de Abril de 2008
Entreatos
Calisto pagou a mais, esbanjou dinheiro. Matraqueou momentos de desabafo de um marido inventado, que não existia além de sua encenação. Os atrasos no escritório foram os motivos para que viesse até aqui, explicou. Nada de ciúmes ou dramas de mulheres mimadas que aproveitam a conta do marido rico nos bordéis e nos shoppings. Dele o que queria não estava nos bolsos, mas guardado em local reservado para secretárias e amantes de estação, todas milimetricamente rascunhadas. Se ele pode, por que eu não, me perguntava ao tirar a roupa. E depois disso uma longa conversa para que a cama fosse um ponto final cada vez mais longínquo.
Por uma única vez quase acreditei. Um hematoma na altura da cintura, uma mordida macia que teve vergonha de mostrar. Com prazeres na ponta da língua a convenci a revelar o seu segredo, a despir os mistérios junto com as peças de roupa. Mas nada naquela nudez era realmente nu, nada rompia suas mentiras. Decidi sozinho que o roxo era fruto de uma pancada e perguntei por mais, questionei o que não acreditava como se disso dependesse minha vida. Implorei que me contasse os detalhes com a promessa de um passeio profundo em seus devaneios e vitoriosa ela o fez.
Para Calisto o sexo era apenas uma história bem contada, o marcador de livro que norteava seus capítulos.
Um dia rompeu nosso romance. Chegou aflita dizendo que tinha uma namorada. Uma amante. Ela havia descoberto sobre nós e não queria que voltasse a me ver. E seu marido, perguntei, só para incomodar. Aquele nunca sabe de nada. Pensa que me tem nas mãos, só porque me tem de joelhos. E começou a chorar sem derramar uma só lágrima. Entendi que o jogo havia mudado. Ator contínuo, incorporei o novo papel e mapeei seu corpo com os dedos, pedindo que me contasse o que a amante lhe havia ensinado, que me convencesse de que era melhor do que eu no que eu tinha de melhor, e pela primeira e última vez conheci o calor de suas entranhas.
Assim que dormiu, fui para o banheiro tomar banho e saí. Dessa vez, nada de ficar deitado até que acordasse. Nada de esperar que preparasse o café da manhã e com os olhos de esposa comportada me desejasse um bom dia trabalho. Nada mais de nosso pacto.
Quando retornei, tinha ido embora. O dinheiro certo em cima do colchão, sem cartas de despedida. Só voltei a ter notícias suas quando uma morena de piercing e tatuagem tocou a campainha e gritou seu nome, dizendo que saísse agora ou estava tudo terminado. Problemas de rotina, expliquei ao novo cliente enquanto sussurrava propostas em seu ouvido, fingindo não ouvir os chutes e berros da única verdade que Calisto contou.
Terça-feira, 22 de Abril de 2008
Jogo de dois
Marcos apontava a arma e fazia declarações de amor com a mesma intensidade, os dois resultados sem volta. Morreu no colo de Alice vomitando uma overdose de calmantes e um ecstasy que misturou na caixinha de comprimidos. Alice chorou por três dias enquanto trepava com o policial que jurou sumir com o corpo. Nunca mais se ouviu falar de Marcos, que aliás não era seu nome verdadeiro. Alice mudou de cidade e teve que se prostituir em outros nichos, explorar os becos que desprezava quando apanhava dos figurões. Sentia saudade da mancha roxa, do tapa na cara e do dinheiro sujo. Sujo como ela gostava de ser, feliz da vida com Marcos e metade do morro entre as pernas. É tudo o que me lembro da mesa do bar, da introdução entediante que Alice fez de si mesma antes de sumir com um cliente e nunca mais voltar. E é o que agora relembro enquanto espio um casal que se engole no banco do parque, espio como um cão que esguicha seu desejo em árvores e postes com a mesma naturalidade que finjo ter ao planejar o bote.
Ando devagar esperando que me vejam, sintam vergonha ou me convidem, mas sou invisível entre as árvores, meu ruído não os incomoda.
Opto então pelo improvável. Sentado no banco em frente poluo o ar com meu melhor cigarro vagabundo. A mulher finalmente me descobre, os olhos mirando-me sem interromper o beijo. Acho que percebo um sorriso – se é mesmo possível sorrir durante um beijo – e retribuo de olhos fixos até que as línguas parem no ar. É aí que ela cochicha algo e quando ele se vira me preparo para a luta. Minhas armas carrego com um trago profundo, com as pernas abertas o suficiente para esquentar a tarde de outono do casal em chamas.
A aproximação é pacífica. O bolso vazio me torna um exímio caçador de recompensas. Apago o cigarro na sola e levanto para um cumprimento. Ela me pergunta e eu respondo nomes e datas. Explico que não vendo nada além de mim mesmo, estou só. Ele mostra o dinheiro, é pouco, mostra mais, é o que tem.
Decepcionado, deixo um cartão de visitas impresso em seus lábios e me viro para ir embora. Ele grita que além daquilo só a roupa do corpo. Respondo que meu armário está cheio e as roupas da namoradinha não são do meu número. Quer então saber se tenho um quarto, só por uma tarde um quarto para alugar. Pela primeira vez percebo a inveja que sinto da minha cama, digo não, nos vemos outro dia.
Na volta para casa a polícia me espera. Querem que eu reconheça o corpo. Falam de uma Elisa que imagino ser Alice, encontrada com um corte no pescoço e um papelote de cocaína. Contam uma história parecida com a do bar, tão semelhante quanto podem ser as histórias de Elisas e Alices quando os nomes não importam mais. O fato é que os rostos não coincidem, mas ainda assim confirmo, e sem a menor vergonha reconto a história de Alice e como Marcos morreu dizendo ‘me salva’ na beirada do sofá. Invento outras falas, outros nomes e cenários, lamento que tenham morrido tão jovens.
O policial agradece a colaboração e estende um papel. Assino um rabisco e em um passe de mágica Elisa se transforma em Alice para que eles possam fazer delas o que quiserem. Uma já morta, a outra jamais saberei.
Evitando o frio agora intenso, peço uma carona. A viatura passa pelo parque, mas não há mais ninguém que me interesse, nenhum bom jogo para acompanhar.
Deito enfim na cama e, abraçado com ela que é só minha, começo a chorar.
Garotos alados
Acordo não sei quanto tempo depois, apoiado em seu colo. Uma toalha molhada me cobre a testa, a pele está gelada. Ele pergunta se quero a camisa esticada no encosto da cadeira ou um pouco de água. Explica que a tirou para ouvir os batimentos do coração. Me sinto um verdadeiro estúpido e é bom saber que ainda há algo de verdadeiro em mim. Tento levantar, consigo. Passo a toalha no rosto, na nuca. Sorte não cair. Quero saber quanto tempo fiquei desacordado. O suficiente para um CD, diz ele apontando o som desligado. Tateio os lençóis até achar o controle. Zonzo, finjo escolher uma faixa e começo a dançar desafiando nosso equilíbrio. Junto ao meu corpo, Angelus escolhe a sua melodia. Sinto seus dedos empurrarem o dinheiro até o fundo do meu bolso. Ainda temos tempo para conversar, falo, sem graça, espiando o relógio. Angelus faz que não com a cabeça. O seu silêncio foi a melhor conversa que tive essa semana, replica.
Os sons que vêm de fora continuam a nos embalar até o último minuto da sessão.
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O personagem virtual Angelus Gautama foi carinhosamente cedido para esse conto.
Novos vícios
Enquanto ajeita na cintura a calça jeans velha que achou no meu armário, Eros começa a perguntar sobre a mulher que caminha na calçada. Tento ser educado e explicar que a história dos que sustentam meus vícios só interessa a mim. Digo isso de um jeito delicado e depois com toda fúria que me convém. Eros debocha passando a língua nos dentes amarelados de nicotina, me empurra na cama provocando sensações vetadas pela censura. O risinho de escárnio se desmancha aos poucos culminando em frustração. A ereção, eu digo, é para ela. Ele ameaça sumir e não voltar jamais. Quem me dera, eu digo, vendo-o partir. Tenho ainda alguns minutos para arrumar a bagunça, me livrar dos copos de cerveja, dos tocos de cigarro, dos pelos entranhados no lençol. Distraído, quase erro o perfume predileto de Cris, o de cheiro de couro legítimo. Com os dedos na maçaneta, sinto ferver cada centímetro da medula. No olho mágico, confiro o que os ouvidos custam a acreditar. Infelizmente, a risada é inconfundível. Enlaçado no ombro executivo de Cris, Eros cochicha algo que a faz sorrir, mostrando que os pelos ásperos de sua barba já conquistaram a intimidade de sua nuca. Ao abrir a porta, a única coisa que me escapa da boca é um olá. Eros desliza a mão em minhas costas enquanto Nina diz calmamente: adorei a novidade. No momento em que sirvo seu uísque predileto, percebo que a quantidade de notas azuis sobre a mesa aumentou.
Eros
Segunda-feira, 24 de Março de 2008
Colcha de retalhos
Hoje, descanso. Fico sentado debaixo do chuveiro de pernas esticadas, deixando que a água leve tudo que não me pertence. Também tenho preguiça, sou humano, sinto muito. Se pudesse fumar debaixo da água ficaria aqui o dia inteiro, esfregando nicotina no cinzeiro e gastando minha chama.
Acende. Apaga. Reacende.
Foi por muito pouco que não esqueci como é bom estar sozinho. Pensar bobagens é prazeroso, você devia tentar com mais afinco, cavar nos rabiscos da agenda uma hora vaga para tal. Sentir a água quente descendo no azulejo gelado também ajuda. Pode colar as costas. O preço é um arrepio igual ao da língua que desliza no umbigo ou simplesmente desliza, sem rumo nem direção.
Minhas mãos não passam de um meio termo desse contraste de temperaturas, mas têm a vantagem de irem aonde eu quiser sem perguntar o porquê. Me toco com precisão cirúrgica, sou bom no que faço e em me convencer disso.
Pausa na fala e na respiração.
A missão digital de reconhecimento revela uma dor aguda que, ciumenta, chama para si todas as atenções. Me atrevo a olhar, tolo que sou me fingindo de forte. Está lá o vermelho para quem quiser ver. O impacto da ducha separa dois cortes largos nos tornozelos, planejados com uma simetria desagradável. As abas da pele bambeiam expondo o mais próximo que cheguei de minha beleza interior. Descem hemácias misturadas ao vinho contínuo da noite passada. Tento buscar na memória uma explicação plausível, que insiste em se esconder nos exageros das doses de uísque sem gelo e guaraná. Penso se os rasgos foram feitos pelo lirismo do réptil que encontrei no bar e arrastei até aqui. É provável. Mesmo sem o teste de DNA consigo identificar a assinatura feita com a ponta afiada do bisturi. Espero que pelo menos tenha pago por isso.
Eu devia me aposentar. Me expor menos às sandices alheias. Eu também tenho fantasias, todas empoeiradas guardadas na caixa cinza no fundo do armário. Posso arrumar outra coisa para viver, mas não saberia viver de outra coisa. Contraditório e repleto de sentido, assim traço os meus dias rumo a um futuro que pouco importa.
Por um instante a água desce mais quente e eu afasto corpo e pensamentos, por instinto.
Volto a olhar a pintura de tons violáceos. Para aperfeiçoá-la inverto a posição e ponho as costas no chão e pernas para o alto, deixo a água quente atingir meu abdômen, esperando que o sangue escorra. Desobediente, se recusa a descer pelas coxas, desenhar panturrilhas, tingir o ventre liso. Escorrego então os pés até as torneiras e desligo a água quente. Aproveito o frio para reorganizar pensamentos, diminuir a ressaca.
Não quero voltar assim para o bar. Tenho que parecer outro e ao mesmo tempo ser mais eu do que nunca. Sou bom no que faço, repito acertando a fivela do cinto. Balanço os gelos do uísque quando o telefone toca. O gerente avisa que posso ficar por ali, ampliar meu território. Só pedirá 10% das minhas noites, alugadas para eventos a combinar. Agradeço. Desligo. O barman coloca mais um dose para comemorar e pergunta se não quero curativos, apontando para o sangue que mancha as meias de vermelho.
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Fim da primeira fase de A Sombra no Sol.
Os novos 10 capítulos em breve.
Sexta-feira, 14 de Março de 2008
Síndrome de Pirandello
O bar aqui é outro, exige calça jeans e camiseta. Acostumado a ser comprado nu, me visto para desaparecer sem perder o encanto. Por sorte, não preciso fingir que me sinto em casa, já que todos me conhecem pelo nome e alguns pela caligrafia. Tiro um cigarro do bolso para que ninguém se confunda. Sim, sou eu que estou de alcovitagem. Observo as mesas e baforo a placa de proibido fumar. O barman me evita, conhece esse brilho em meus olhos e sabe como a noite termina, foge do vácuo da minha depressão. Mas hoje vou surpreender a teoria da evolução. Não adianta me filtrar como um vírus só porque te causo febre. Conheço trilhas mais eficientes que as suas narinas. Penso em veias e no uísque, penso em dançar de olhos fechados e é isso que faço.
De relance, encontro uma criatura que também entende as trevas.
Só o conheço pelas tatuagens. Alguém fugido de suas próprias ficções. Santiago deixa escapar os pensamentos pelo zíper surrado, pela gola que meus dedos aprenderão a percorrer. Pergunto se está procurando alguém, sem preço, sem nada. Não sei se ele é uma das formas de Morpheu, de antes ou depois da sangria. Talvez eu seja uma entrelinha de histórias suicidas, digo ao me apresentar. Da janela fechada, aponto uma outra janela, essa aberta, com um cinzeiro de metal. É ali que me alimento, explico, puxando sua mão fria para um novo capítulo.

